E aí que semana passada eu tava no hospital com minha avó, que foi operada de um tumor no rim esquerdo e no dia em que ela teve alta, meu avô foi internado com derrame pleural e eu tenho ficado lá com ele pra revesar com meu tio.
Até aí, nada de mais, hospital é um tédio, mas meu avô é lindo e eu nem ligo de ficar lá com ele, pego um livro pra ler e já era. Só que aí ele vira e começa a falar que quando ele melhorar ele quer viajar com minha avó para a Grécia e para a Itália. Vocês tinham que ver a cara dele falando isso, feliz, animado, empolgado. E aí eu me segurei muito pra não chorar (mas agora, enquanto escrevo eu estou chorando horrores), porque eu só conseguia pensar que ele não vai melhorar, sabe, não o suficiente pra fazer uma viagem dessas, até porque ele mal dá conta de andar, mesmo com a bengala dele, ele cansa muito rápido, tem vertigem, além da fraqueza da idade. Além disso, tem a doença da minha avó, que a gente ainda não tem o resultado, nem sabemos ainda se vai precisar fazer quimioterapia ou radioterapia, porque pelos exames de imagem, havia suspeita de que o tumor fosse maligno.
Vovô e vovó só saíram do país pra ir ao Paraguai algumas vezes quando eu era mais nova, vovó sempre adorou bugigangas e adorava aquelas excursões de ônibus pra lá, mesmo a viagem levando acho que mais de um dia. Eles nunca foram mais longe que isso, apesar de ter dinheiro para fazê-lo, entre outras coisas porque vovó tem medo de viajar de avião. E agora que a chance passou, meu avô parecendo uma criança sonhando com uma viagem que ele não vai fazer. Enquanto eu choro porque caiu a ficha que o quadro dele não tem mais volta, mas fico me enganando tentando acreditar que daqui a uns dias ele estará bem e acho que é o que ele faz também quando começa a falar de uma viagem que não vai fazer.

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E aí que esse final de semana rolou a slut walk (ou marcha das vagabundas, se preferirem) em São Paulo. A marcha surgiu no Canadá depois que um policial instruiu alunas de uma faculdade a “não se vestir como vagabundas” como parte dos procedimentos para evitar ser estuprada. As alunas como resposta resolveram marchar vestidas de vagabundas, para dizer que não importa a roupa que a mulher usa, isso não dá a ninguém o direito de atacá-la, que a responsabilidade do estupro não é da vítima e sim do estuprador e que não são as mulheres que precisam aprender o que fazer para não ser estupradas, mas sim os homens têm que aprender a não estuprar. E isso chegou ao Brasil, esse sábado foi em São Paulo, dia 18 será aqui em BH.

A ideia é bem legal e eu certamente irei na daqui de BH. O que me incomodou foi a reação das pessoas à manifestação. Que a mídia tradicional não ia entender bem a ideia (ou melhor, até entende, mas não compra, não é do interesse dessa mídia caduca e conservadora), eu já sabia, mas eu li cada coisa na minha timeline que me deixou um pouco chocada. E eu sei que tem gente que escreve certas coisas pra chocar mesmo, pra ser do contra, incomodar, sei que nem tudo é sério (um dos grandes maus da internet é que as pessoas levam tudo ou a sério demais ou de menos). Um que me marcou foi o de que a maioria das mulheres na marcha das vagabundas provavelmente achou a Geizy Arruda biscate/puta/vagabunda/wathever quando deu a confusão do vestido dela na faculdade, como se achar isso e ir `a marcha fossem coisas imcompatiiveis

Aí eu acho muito importante fazer uma distinção entre fazer qualquer julgamento a respeito de uma pessoa e agredi-la com base nesse julgamento. Se me perguntarem o que eu acho da tal da moça, acho baranga (mesmo tendo melhorado bastante desde o incidente), vulgar e tem jeito de biscate mesmo, além disso, ela foi muito esperta e soube aproveitar uma situação terrível a seu favor. Mas acho um absurdo o que fizeram com ela, esse é o MEU julgamento, e mesmo que fosse verdade, isso não daria a ninguém o direito de agredi-la, seja física ou verbalmente. Assim como a menina que apanhou porque acharam que ela era puta. E se fosse puta mesmo? Isso daria a alguém o direito de bater nela? Julgamentos a respeito das pessoas, todo mundo faz, uns mais ingênuos, outros mais maliciosos, malvados. Eu tenho tentado não fazê-los sem conhecer uma pessoa, porque as pessoas são muito mais do que as caixinhas dentro das quais tentamos encaixá-las, mas ainda não atingi um nível de “elevação espiritual” ou sei lá o que pra dar conta de nunca os fazer. Julgamentos, todo mundo faz o tempo todo: bonito, feio, legal, chato, burro, inteligente, divertido, mala sem alça, pseudointelectual, gay, lésbica, hetero, nerd, pagodeiro, micareteiro, metaleiro, emo, punk, preto, branco, índio, pobre, rico, puta, crente e sei lá mais o que. Só que dependendo do julgamento, as pessoas se acham no direito de agredir ou negar direitos às pessoas. E esse é o problema. Que tantos anos depois do “taquei fogo no índio porque achei que era mendigo” ainda vejamos notícias como “bati nela porque achei que era puta”, “bati porque achei que era gay”. Se fosse mendigo, se fosse gay, se fosse puta, estaria tudo bem?

Em tempos de união homoafetiva e marcha das vadias, ‘e tudo puta e viado mesmo. E a sociedade vai ter que aprender a lidar com isso.

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E aí que eu tava numa das minhas aulas de estudos temáticos de cultura alemã (essa é sobre a Alemanha pós-guerra) e apesar de a aula ser sobre a Alemanha Ocidental, estávamos falando sobre as zonas de ocupação e alguém falou da igreja e perguntou como era na zona de ocupação soviética, porque os comunistas eram contra a igreja e tal.
Aí a professora falou uma coisa que me incomodou muito. Ela falou que claro que ainda tinha igreja, porque muita gente até fala que é ateu, mas é muito difícil a pessoa ser de verdade, que na RDA até havia muitas pessoas que se diziam agnósticas, mas que era só porque elas não estudavam religião na escola. E eu me segurando pra não virar e falar: peraí, como assim as pessoas só são ateias da boca pra fora? São agnósticas porque não estudaram religião na escola? Eu sou ateia E eu estudei religião na escola. Estudei em escolas católicas a maior parte da minha vida, participei de tudo o que eu pude e percebi que mesmo achando muita coisa legal, me faltava o mais importante: a fé. E tenho muitos amigos que também são ateus. E olha, talvez nos países comunistas fosse mais fácil dizer por aí que você não acredita em deus, porque em vários desses países a religião foi mesmo proibida, mas hoje, no Brasil, e em muitos países, é muito mais fácil ter uma religião da boca pra fora só pra não ter que aguentar todos os comentários sobre como quem não tem deus é mau e sem esperança e sei lá mais o que. Mas eu escutei e fiquei caladinha, pensando com os meus botões, porque né, a aula não é sobre mim e o que ela pensa sobre ateísmo provavelmente eu não ia conseguir mudar naquela hora. E a aula não é sobre isso.
Mas me aguardem no meu seminário sobre os movimentos feministas do final da década de 60, início de 70 e a campanha pela legalização do aborto. Ai de quem porventura abrir a boca pra falar de deus ali.

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Gordices

Aí ontem fiz um jantar aqui em casa pra testar a receita dos Molten Chocolate Cakes e foi muito divertido. É tão bom reunir os amigos, ainda mais os que mudam de cidade e me abandonam aqui. Comi tanto ontem que ainda estou me sentindo empanturrada. E me pediram a receita dos bolinhos e eu pensei com meus botões que apesar do nome desse blog não ter nada a ver com eu ser Amélia, mas sim com um clipe de uma música tosca que algum amigo meu  descobriu no Youtube, talvez fosse legal colocar a receita aqui. Só faltou ter tirado alguma foto dos bolinhos ontem para ilustrar o post.

Molten Chocolate Cakes (Bolos derretidos de chocolate?)

Ingredientes:

1/2 xícara de manteiga sem sal

170g de chocolate meio amargo picado

3 ovos grandes, gemas e claras separadas

1/3 de xícara de açúcar

1 colher de sobremesa de extrato de baunilha

1 pitada de cremor tártaro (tá, a receita original dizia 1/8 de colher de sobremesa, pra quem gosta de exatidão, e ele é opcional)

1 colher de sopa de açúcar para polvilhar nos ramekins

4 ramekins ou fôrmas de 180 a 240mL (tá, eu sei que não são ingredientes, mas você precisa disso pra receita)

Modo de preparo:

Preaquecer o forno a 200 °C, untar os ramekins com manteiga e polvilhar o açúcar. Derreter o chocolate com a manteiga em banho-maria e reservar. Bater as gemas com o açúcar até ficar uma massa firme, esbranquiçada e fofa (quando o batedor é levantado, a massa deve escorrer lentamente na forma de fitas). Bater o extrato de baunilha e misturar delicadamente o chocolate derretido (a receita manda misturar dobrando, mas tinha um vídeo e lá a mulher misturou na batedeira mesmo, e foi o que eu fiz). Reservar. Em outra vasilha, bater as claras até elas ficarem aeradas, e então adicionar o cremor tártaro (ele ajuda a estabilizar as claras em neve, as deixando mais resistentes ao calor) e bater até o ponto de picos firmes (as claras estão nesse ponto quando você vira a vasilha de cabeça para baixo e as claras nem se mexem). Com uma espátula de borracha, misturar delicadamente as claras à massa de chocolate, dobrando a massa, só mesmo o suficiente para incorporar as claras em neve à mistura, porque se misturada demais, a massa vai murchar e os bolinhos não vão crescer. Distribuir a massa nos ramekins, colocar os ramekins em uma assadeira e assar por 10 a 15 minutos, até as bordas ficarem firmes, mas o meio ainda parecer úmido e mole. Os bolos podem descansar por no máximo dois minutos antes de serem servidos, se demorar mais que isso, eles podem murchar. Os bolos podem ser servidos nos ramekins, ou podem ser desenformados e servidos num prato. Eles pode ser acompanhados por chantilly ou sorvete de creme.

Obs.. a massa pode ser feita com algumas horas de antecedência e mantida na geladeira depois de distribuída nos ramekins e coberta com filme plástico, os bolos só devem ser assados na hora de servir. A massa guardada na geladeira levará um pouco mais de tempo para assar.

Obs2. O cremor tártaro (bitartarato potássico) é um subproduto da fermentação do suco de uva na fabricação do vinho, ficando depositado nas paredes dos tonéis. Ele também pode se formar em garrafas de suco de uva natural e de vinhos jovens quando resfriados (é o que as pessoas às vezes chamam de borra do vinho). O cremor tártaro tem vários usos na culinária, além de estabilizar as claras em neve, ele também estabiliza chantilly (deve ser adicionado depois de já batido o creme de leite), inibe a cristalização de caldas de açúcar e em combinação com bicarbonato de sódio é um fermento químico.

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Somatizando

É engraçado que eu nunca tinha tido amigdalite quando criança. Tive pela primeira vez aos 18 anos. Até hoje me lembro muito bem das circunstâncias, pois foi quando meu pai saiu de casa. Meus pais já estavam separados, já não dormiam mais no mesmo quarto, e eu sabia que a separação era a decisão mais acertada mesmo. Não chorei pelo meu lar desfeito. Ajudei meu pai a levar suas coisas para seu novo apartamento. E no dia seguinte, pela primeira vez na minha vida, acordei com amigdalite. Desde então já tive várias amigdalites. Já pedi pra minha otorrinolaringologista de plantão, também conhecida como minha mãe, para tirar as amígdalas, porque não aguentava mais as amigdalites. Ela disse que não, que não se tiram as amígdalas depois dos dezoito e que meu problema não era tão grave assim que justificasse quebrar essa regra. As amígdalas continuaram aqui. Eu tenho pelo menos uma amigdalite por ano, às vezes mais. Não lembro quando foi a última.

Ontem minha mãe foi embora de novo. Dessa vez ela foi de carro, com o porta-malas cheio das suas coisas. O que tornou a mudança mais concreta, sabe. Ela não estava aqui, mas todas as suas coisas estavam, ela não parecia ter ido embora, podia estar só viajando de férias. Agora não. E eu ontem acordei com amigdalite. Eu já fui embora e voltei. Mas agora quem foi embora foi ela. É no mínimo simbólico que sua partida seja marcada exatamente da mesma maneira que a do meu pai.

Mas pode ser só a doença atrapalhando meus pensamentos.

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Folga e falta de noção

Se tem uma coisa que me revolta profundamente é a folga das pessoas. E tem uma tia minha que é a rainha da folga e falta de noção. Depois de muitos anos de relacionamento, ela se casou alguns anos atrás, mas ela e o marido nunca moraram juntos, minha tia e os filhos dela continuaram no apartamento dela e ele no dele. Aí parece que ele esteve internado e teve alta há poucos dias. Eu não sei o que ele teve, porque já briguei com minha tia justamente por achá-la mega folgada, e nem fiquei sabendo que o marido dela estava internado.

Aí começa a folga. O cara teve alta e não podia ficar sozinho em casa. Ele poderia ficar na casa da minha tia, ele poderia ir para a casa do filho dele (que é casado e até filha já tem), ele poderia até contratar uma enfermeira se fosse o caso, mas não, ele foi levado para a casa da minha avó, que já tem que cuidar do meu avô. Isso pra mim é folga. MUITA folga.

Só que isso ainda é o nível de folga que eu considero dentro do limite aceitável, sabe. Acho falta de noção dar mais trabalho pra minha avó que já tem mais de oitenta anos e que cuida do meu avô que é diabético, cardíaco e que de uns tempos pra cá quase nem consegue andar por causa de uma dor na perna que ninguém descobre a causa. Só que aí ontem meu avô foi internado. E o marido da minha tia vai continuar na casa da minha avó. E minha avó não pode ficar no hospital com o meu avô quando a empregada não está em casa (ela só vai três vezes por semana) porque o marido da minha tia não pode ficar sozinho.

Eu já falei pra minha avó que fico no hospital quando ela não puder ir, mas acho o cúmulo do absurdo ela ter que ficar se desdobrando pra cuidar do marido da minha tia. O marido é dela, ela que cuide, oras! No mínimo, na hora que minha tia soube da internação do meu avô ela tinha que ter ido buscar o marido. Minha avó não precisa de mais preocupação.

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Enfim só

Pois bem, ontem minha mãe se mudou pra Franca, me deixando sozinha nesse apartamento. As pessoas, minha mãe inclusive, perguntaram até se eu não teria medo de morar aqui sozinha, e eu obviamente respondi que não. Medo de ficar sozinha? Pelo contrário, sempre gostei muito da solidão, por vezes até bem mais que da companhia das pessoas.

Em São Paulo eu morava num flat de uns 50m2 pseudo sozinha. Meu pai era meu vizinho de porta, mas passávamos semanas às vezes sem nos encontrar. Só que ele tinha a minha chave e de vez em quando aparecia sem aviso, geralmente com sacolas de supermercados cheias de coisas que eu não como, porque não adiantava eu dizer que não gostava de uma coisa se ele achasse que aquilo era bom, ele continuaria comprando e enchendo meus armários e geladeira até que esses alimentos estragassem. Aí eu voltei pra Belo Horizonte, pra casa da minha mãe ano passado, e ontem ela se mudou pra Franca. Ela também continua tendo a chave de casa e pelo menos no início deve voltar de 15 em 15 dias pra passar o final de semana.  Mas sem muita chance de aparecer de repente sem avisar, né…

Só que eu passei de sozinha num apartamento que consistia apenas em uma suíte e uma sala conjugada com uma pseudocozinha para um apartamento de dois andares, com 4 quartos (na verdade eram 5, mas a dona anterior já tinha reformado e transformado dois dos quartos em um só), sala de jantar, sala de estar, uma cozinha bem grande e 3 grandes varandas. É quase uma casa, com direito a lagartixas e a morcegos que entram na cozinha durante a noite. Só meu quarto e banheiro já devem ser quase do tamanho do meu apartamento de São Paulo.

A grande diferença entre ficar sozinha lá e ficar sozinha aqui, são justamente as dimensões. Todo esse espaço vazio parece amplificar a solidão, sabe. Lá, ou eu estava no quarto ou na sala, um do lado do outro. Estou com sede? A cozinha está a poucos passos. Banheiro? Mais alguns passos. Tocou a campainha? Logo estou à porta. Aqui não. O banheiro continua perto, mas uma ida à cozinha já exige que eu desça a escada, passando para isso pelo corredor com a sala de televisão vazia na outra ponta, ao descer, mais um corredor, com dois quartos vazios, a cozinha tem janelas que dão pra sala de jantar, que também está vazia.

Eu não tenho medo de ficar sozinha aqui, mas parece que ficar sozinha aqui é mais triste, ainda mais solitário, sabe. Ontem foi minha primeira noite nessa nova situação. Vamos ver como serão as próximas.

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